Home > ARTIGOS > Balança comercial de abril ainda não foi afetada pelas turbulências no setor externo

ARTIGOS

16/05/2018 09:58 por Redação

Balança comercial de abril ainda não foi afetada pelas turbulências no setor externo

ICOMEX (Comércio Exterior - FGV) *

Os sucessivos superávits da balança comercial contribuem para o acúmulo das reservas internacionais, que estão ao redor de US$ 380 bilhões. Esse resultado é destacado como um dos fatores que reduzem o grau de vulnerabilidade da economia brasileira. No entanto, a partir do mês de abril alguns acontecimentos começaram a lançar dúvidas sobre o futuro desempenho da balança comercial.

O primeiro se refere ao anúncio, em 1º de maio, de que os Estados Unidos irão sobretaxar ou negociar cotas para as exportações brasileiras de produtos siderúrgicos e de alumínio. O total desses produtos representam 1% do total das exportações brasileiras. O segundo se refere a um possível recuo no crescimento econômico da Argentina e, logo, uma queda nas exportações brasileiras para esse mercado. Nesse caso, o principal setor afetado seria o automobilístico. No acumulado até abril de 2018, 79% das vendas externas de automóveis foram para a Argentina e a participação das vendas de automóveis no total das exportações brasileiras é de 2,8%. Nesses dois casos, setores saem prejudicados, mas a melhora no desempenho de outros produtos poderá compensar essa perda. O terceiro é a instabilidade cambial que eleva o grau de incerteza nas decisões dos operadores de comércio exterior.

Entre janeiro e abril de 2018, o índice da taxa de câmbio efetiva real se desvalorizou 7%. Na comparação do acumulado até abril entre 2017 e 2018, a desvalorização foi de 9,7%; entre o acumulado até abril entre 2016 e 2018, houve valorização de 14%. Logo, há uma tendência de desvalorização real, mas ainda distante do efeito de 2016. Somando a esses resultados, a instabilidade nominal do câmbio e possíveis efeitos da desvalorização nominal na taxa de inflação, o cenário cambial poderá elevar o grau de incerteza nas operações de comércio exterior.

Os resultados da balança comercial até abril, porém, não foram afetados por essas “turbulências”. O saldo da balança comercial foi de US$ 6,1 bilhões e no acumulado do ano de US$ 20,4 bilhões próximo ao de igual período em 2017, US$ 21,3 bilhões.

Índices de comércio exterior agregados

Entre os meses de abril de 2017 e 2018, as exportações aumentaram 12,7% e as importações 28,7%. No acumulado do ano até abril entre 2017/2018, o crescimento foi de 9,6% para as exportações e 15,9% para as importações. O aumento das importações supera o das exportações e um dos fatores que contribuiriam para esse resultado seria a retomada do crescimento econômico do país, após recuos no PIB da ordem de 3,5% em 2015/16. No entanto, é preciso analisar a composição desses aumentos a partir dos índices de preços e volume dos fluxos de comércio.

Entre 2016/2017, a variação do volume exportado tendeu a superar a do volume importado em quase todos os meses do ano. Em 2018, o resultado se inverte e o volume importado supera o das exportações. Assim, entre abril de 2017/18, o volume exportado recuou 3,5% e na comparação do acumulado caiu 4%. Na comparação mensal, o volume importado cresceu 8,2% e no acumulado aumentou 1,1%.

Como explicar o aumento em valor das exportações? São os aumentos nos preços que sustentam a variação positiva do valor exportado em 2018. O preço das exportações cresceu 15,7% entre os meses de abril de 2017 e 2018 e 13,1% na comparação do acumulado até abril, enquanto como já analisado o volume exportado caiu nas comparações desses períodos. Em 2017 era diferente, o volume exportado liderou o aumento em valor das exportações.

O aumento nos preços de exportações leva ao tema dos termos de troca, que em 2018 registram um leve recuo: entre os meses de abril de 2017 e 2018 a retração é de 0,1%; na comparação entre os primeiros quadrimestres de 2017 e 2018, o recuo é de 2%; e, entre janeiro e abril de 2018, queda é de 1,4%. O aumento nos preços exportados não tem sustentado a tendência de elevação dos termos de troca iniciada em julho de 2017. No entanto, registra-se que a queda nos termos de troca é pequena quando comparada com o que ocorreu a partir de agosto de 2014. Até o momento, os termos de troca tendem a se situarem num campo favorável, do ponto de vista da balança comercial.

Cerca de 60% das exportações brasileiras são de commodities. Observa-se que preços das commodities aumentam, mas o volume exportado recua seja na comparação mensal (-7%) ou na comparação do acumulado até abril (-10%). No caso das não commodities, os preços lideram as exportações, mas o volume exportado registra sinal positivo: 0,8% na comparação mensal; e 4% na comparação do acumulado até abril, 4%. Em ambos os casos pode se concluir, que o comportamento dos preços em sido o principal determinante do comportamento em valor das exortações.

Tipo de indústria

A análise por tipo de indústria mostra que em termos de volume exportado, o setor agropecuário registra as maiores variações. Na comparação do acumulado até abril, o volume exportado da agropecuária foi de 4,2%, da indústria de transformação, 1,2% e a indústria extrativa recuou 28%. No caso dos preços, houve recuo na agro (-2,2%), ganho de 40,8% na extrativa e de 11,4% na transformação. O aumento acentuado nos preços da extrativa está principalmente associado ao crescimento dos preços e petróleo e derivados.

A mesma análise para as importações por tipo de indústria ressalta o aumento em volume da indústria de transformação (11,6% na comparação mensal e 3,5% na do acumulado) e retração ou aumento abaixo de 1%, como no caso da agropecuária na comparação mensal. Nenhuma surpresa, as importações brasileiras se concentram em bens demandados pela indústria de transformação.

No comportamento das exportações da indústria de transformação por categoria de uso a liderança cabe à indústria de bens de capital e de consumo semiduráveis. No primeiro grupo estão segmentos do setor automotivo, como veículos de carga e as plataformas de petróleo. As plataformas registram aumento de mais de 500% em termos de volume na comparação do acumulado até abril de 2017/18.

A recuperação do nível de atividade da economia está associada a uma maior demanda por bens intermediários e num cenário de expectativas favoráveis, de aumento pelos bens de capita. As importações dessas duas categorias devem aumentar.

A demanda por importações dos bens que compõem a Formação Bruta de Capital Fixo da Economia cresceu 25,5% na comparação do acumulado do ano até abril (2017/2018) e 5,7% na mensal (abril 2017/18). Dividimos a demanda por bens de capital entre o setor agropecuário e o da transformação. Embora a indústria de transformação registre resultados positivos, o setor agropecuário registra crescimentos acima de 100%. Observa-se que o peso do setor agropecuário na FBCF da economia é menor que o da indústria, o que explica esse resultado.

As importações por bens intermediários recuam em termos de volume no setor agropecuário e aumenta na comparação mensal na indústria de transformação (4,2%), mas cai na comparação do acumulado. No caso da agropecuária, os resultados para os bens intermediários podem ser explicados por fatores sazonais associados ao tempo de plantio. Já o crescimento nas importações de bens de capital estaria associado a antecipações de aumento de estoque de capital face a possíveis desvalorizações cambias e ganhos cm a safra atual.

Na indústria de transformação, o resultado positivo na variação das importações de bens intermediários para abril indica aumento no nível de atividade e o aumento nas compras de bens de capital indicaria expectativas positivas quanto ao aumento da demanda.

Todas essas considerações, entretanto, devem ser qualificadas com o cenário de instabilidade cambial. Os aumentos de compras em abril podem ser antecipações de compras num cenário de tendência de desvalorização cambial.

Em suma, a análise da balança comercial até abril sugere que projeções de saldos ao redor de US$ 50 bilhões continuam factíveis, apesar das turbulências no cenário internacional.

Leia o relatório com os gráficos aqui.

* Indicador mensal da balança comercial - Abril 2018

* Indicador mensal da balança comercial - Abril 2018

'
Enviando