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13/06/2018 12:53 por Redação

Depreciação cambial e padrões de repasse à inflação

Depec-Bradesco*

A recente depreciação da moeda brasileira levanta a discussão sobre como ocorrerá a transmissão desse choque para os preços ao consumidor, o chamado pass-through. Nos últimos anos observamos diversos ciclos de depreciação do real. Segundo nossas estimativas, considerando o período entre 2002 e 2017, o pass-through médio acumulado em um intervalo de doze meses é de 7,2% para a inflação cheia (IPCA) e 4,2% se considerarmos somente os preços livres. É importante ressaltar que o desvio padrão dessas estimativas não é pequeno, aproximadamente 1,5 p.p. para o IPCA cheio e 0,8 p.p. para os preços livres. Ao mesmo tempo, neste momento, alguns indicadores econômicos apresentam dinâmicas diferentes dos outros ciclos de depreciação do real, como inflação corrente baixa e expectativas ancoradas para horizontes extensos de tempo. Some-se a isso a dinâmica do PIB, que tem sido bem mais moderada na comparação com os outros períodos.

A princípio, esses fatores permitem acreditar que o repasse cambial para o preço final possa ser mais contido do que a média estimada. Isso porque, com o crescimento mais gradual, aumenta a dificuldade de repasse de custos para o preço final e com as expectativas de inflação ancoradas, a mensagem implícita é de que a inflação retornará rapidamente para a meta após um choque, reduzindo a necessidade de repasses preventivos. Porém, o comportamento dos preços no atacado, até o momento, indica que essa hipótese só será verdadeira se o varejo seguir absorvendo o choque em suas margens.

Para o ciclo atual ainda não é possível mensurar qual será a intensidade desse repasse ao consumidor por conta da defasagem com que esse processo ocorre. Só teremos maior convicção do repasse ao longo dos próximos meses. Cabe, portanto, qualificar os incentivos de repasse até o momento, comparativamente à média dos outros ciclos:

i.   A velocidade da depreciação da moeda brasileira tem sido um pouco mais rápida;

ii.  A alta dos preços das commodities em dólar, hoje em dia, se contrapõe à queda média de 4% observada nos outros ciclos;

iii. Os grupos de preços no atacado que apresentam uma sensibilidade mais rápida ao câmbio, como o núcleo do IPA industrial, apresentam aceleração nos dados mais recentes;

iV.  A margem de lucro das empresas está apertada, dada a recessão dos anos anteriores.

V.   O hiato do produto hoje está bem mais aberto que nos eventos anteriores, o que tende a dificultar o repasse do choque ao longo da cadeia.

Os itens (iii) e (iv) precisam ser qualificados nesse ciclo. Desde o início de 2017, as altas observadas no atacado não têm sido repassadas ao consumidor final, o que reforça a hipótese de um repasse histórico menor em função do hiato do PIB. Isso fica claro quando observada a relação histórica entre o núcleo do IPA industrial (atacado) e os preços de bens industriais ao consumidor. É possível notar aceleração dos preços no atacado, mesmo antes da recente depreciação cambial, e estabilidade dos preços ao consumidor. Como não estamos enxergando vazamento do consumo (ou seja, aumento das importações que poderia explicar parte dessa divergência), esse descolamento reforça nossa visão de que as empresas, ao longo da cadeia, vinham absorvendo as pressões do atacado em suas margens, em parte porque fizeram ajustes importantes de custos.

Entretanto, o novo choque cambial adicionou pressão a esse quadro. Os últimos indicadores de preços no atacado já indicam uma segunda rodada de aceleração. É possível dizer que, levando em conta a dinâmica recente das cotações das commodities em reais, devemos seguir observando preços no atacado pressionados. A hipótese que vinha se confirmando, de que a recessão impedia maiores repasses aos consumidores, será testada novamente, caso esse novo choque se perenize em um ambiente de margens apertadas. Como ainda há dúvidas quanto à intensidade do choque, e sua perenidade, e quanto ao efeito secundário sobre a atividade, que pode alargar ainda mais o hiato que, até o momento, tem permitido um repasse menor do que o histórico, seguimos trabalhando com essa hipótese em nossa projeção de inflação de 3,9% em 2018. Entretanto, caso o choque se mantenha na atual magnitude, e o repasse migre para mais próximo da média histórica, há potencial para adicionarmos entre 30b.p. e 50b.p. a essa projeção.

Essa incerteza sobre o tamanho do repasse já foi amplamente discutida na literatura. Em Goldfajn e Werlang (2000)4, os autores fazem um modelo em painel com 71 países entre 1980 e 1998 e encontram indícios de que o estado do componente cíclico da atividade (hiato do produto), o tamanho da desvalorização da taxa de câmbio, a inflação corrente e o grau de abertura da economia são importantes vetores para a determinar a intensidade do pass-through. Assim, a transmissão do repasse cambial está relacionada ao ambiente econômico. Em uma análise complementar, Marodin e Portugal (2018)5 investigam o comportamento não-linear do pass-through na economia brasileira entre 2000 e 2015. Os autores apontam evidências de existência de dois regimes distintos para o repasse cambial e para a variância dos choques sobre a inflação. Sob um regime “normal” da economia, o pass-through de longo prazo para inflação ao consumidor é muito baixo, apenas 0,00057 ponto percentual para uma variação de 1% no câmbio. Enquanto que sob um regime de “crise” essa mesma variação gera um choque de 0,10 p.p. na inflação ao consumidor.

Essa discussão do tamanho do repasse deve também ser feita à luz do debate sobre mudança de preços relativos. Diante de uma depreciação cambial como o que estamos vivendo, é natural que haja mudança de preços relativos entre bens tradables e non-tradables. Quanto mais ancoradas estiverem as expectativas e maior a ociosidade na economia, maior a chance de que o choque se transforme apenas em mudança de preços relativos, depreciando o câmbio real, e não vire uma alta generalizada de preços. O grupo de bens industriais, mais sujeito à influência do câmbio e da aceleração vista no atacado, pesa 23% do IPCA. Já o grupo de serviços pesa cerca de 35%. Por ora, e diante da fragilidade do mercado de trabalho e dos salários contidos, não há grande expectativa de contaminação dos serviços diante desse choque. A se observar essa contaminação, os riscos para a inflação geral aumentam e a probabilidade de que os setores afetados absorvam o choque em suas margens diminui. Portanto, será crucial observar o comportamento dos bens non-tradables nos próximos meses para se ter a dimensão exata do risco do choque para os preços em geral.

Portanto, ainda é cedo para mensurarmos de que forma acontecerá essa transmissão no ciclo atual. Como vamos conseguir medir de fato apenas no decorrer do segundo semestre, cabe neste momento monitorar o comportamento dos preços das cadeias com transmissões mais rápidas. Dentre as quais podemos destacar componentes do núcleo do IPA industrial e gasolina. Nos dois casos, os sinais indicam que, inicialmente, está ocorrendo transmissão semelhante às relações históricas, mas ainda não há maiores elementos para julgar a contaminação dos preços ao consumidor. Em nosso cenário atual de inflação (IPCA), de altas de 3,9% para 2018 e 4,25% para 2019, estamos considerando a taxa de câmbio de R$/US$ 3,60. Ainda que se materialize um repasse semelhante à média histórica ou ocorra uma depreciação um pouco maior do que a prevista em nosso cenário, é possível ponderar que os novos níveis de inflação ainda se encontrarão, com alta probabilidade, dentro das bandas do regime de metas de inflação.

Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco.

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