Home > ARTIGOS > ICOMEX: aumenta a contribuição das commodities nas exportações brasileiras

ARTIGOS

11/10/2018 09:25 por Redação

ICOMEX: aumenta a contribuição das commodities nas exportações brasileiras

ICOMEX (Comércio Exterior - FGV) *

Após o valor da exportação ter aumentado 16% e o das importações 35% na comparação mensal entre agosto de 2017 e 2018, o ritmo de crescimento desacelerou para 2,1% (exportações) e 4,7% (importações), entre os meses de setembro de 2017 e 2018. Isso ocorreu num cenário em que a desvalorização em termos reais da taxa efetiva de câmbio foi de 16% (setembro 2017/18), o que impulsionaria as exportações. As incertezas associadas a um cenário de instabilidade cambial tendem a comportamentos de postergação de decisões por parte dos operadores de comércio exterior. Em adição, os resultados de agosto foram influenciados por compras e vendas de plataformas de petróleo (ver ICOMEX de setembro). Em relação ao fechamento da balança comercial em 2018, no acumulado do ano até setembro, o superávit comercial foi de US$ 44,3 bilhões, inferior em US$ 9 bilhões ao de igual período em 2017, o que sinaliza um superávit na ordem de US$ 55 bilhões para 2018.

Chama atenção a queda da participação das manufaturas nas exportações, que alcançou o seu menor percentual (35%), na série histórica do acumulado do ano até setembro, desde 1980. A contrapartida é a crescente participação das commodities onde as 3 principais (soja em grão, minério de ferro e petróleo) explicam 31% do total exportado. Além disso, dois produtos — a soja em grão e petróleo — contribuíram em 60% para o aumento das exportações entre os períodos de janeiro a setembro de 2017 e 2018.

A concentração nas commodities leva a que a China aumente sua participação nas exportações brasileiras que chegou a 26,3%, no acumulado do ano até setembro, seguida dos Estados Unidos 11,4% e Argentina, 6,8%. Nesse cenário de guerra comercial entre os dois principais mercados de destino das exportações brasileiras, é necessário cautela por parte dos formuladores da política comercial do Brasil para que se mantenham preservados os dois mercados.

Os índices de comércio exterior

No mês de setembro, o volume exportado recuou 3,5% e o da importação 5,2% em relação a setembro de 2017. No acumulado do ano até setembro as exportações aumentaram 1,4% e as importações, 12,9%. No caso dos preços, o resultado para as importações supera o das exportações na comparação mensal e quase iguala na do acumulado (7,6% para as exportações e 7,7% para as importações). Observa-se, portanto, que a variação positiva em valor na comparação mensal dos fluxos comerciais é explicada pelos preços, pois os volumes recuaram.

Como anunciado no ICOMEX de setembro, passamos a calcular os índices com a exclusão das plataformas de petróleo. No mês de setembro não foram registradas operações de plataformas, logo as variações em volume não se alteraram. No acumulado, onde existem registros dessas operações em alguns meses do ano, a variação no volume exportado passa de positivo (1,4%) para negativo (-0,3%) sem as plataformas e nas importações cai de 7,7% para 6,7% (sem plataformas).

O desempenho exportador positivo em termos de valor no mês de setembro está associado às commodities, que cresceram 2,7% no volume e 7,9% nos preços. Destaca-se o petróleo e derivados que aumentou na comparação mensal 37,2% (volume) e 34,1% (preços). As outras principais commodities, como o minério de ferro e as commodities agrícolas registraram aumentos inferiores a 10%. O volume exportado das não commodities recuaram 7,0% e os preços em 1,5%. No acumulado do ano até setembro, as variações em volume ou preço das commodities supera o das não commodities.

Os termos de troca após terem interrompido a sua trajetória de queda em junho e julho voltaram a cair e acumulam uma perda de 5% entre julho e setembro. A alta do petróleo influencia os preços exportados, mas também os importados. No acumulado do ano até setembro, os preços de exportações de petróleo e derivados aumentaram 34,4% e das importações dos mesmos produtos, 30,7% em relação a igual período de 2017. Em setembro, o preço das importações de petróleo e derivados (41,2%) superou o já mencionado das exportações (34,1%). Não se espera melhora nos preços das commodities que tendem a cair quando o dólar valoriza, sendo o comportamento recente do petróleo atípico. Além disso, o efeito Trump acabou por contribuir na redução os preços de algumas commodities, como a soja.

Índices por indústria e categoria de uso.

A variação do volume exportado por tipo de indústria no mês de setembro em relação a igual período do ano anterior registrou aumento na indústria extrativa (18,1%) puxado pelas vendas de petróleo (37,2%), mas queda na agropecuária (-13,7%) e na indústria de transformação (-6,3%). No entanto, quando se analisa a variação no acumulado do ano até setembro, a agropecuária lidera com crescimento de 4,5%, seguido da transformação (0,6%) e a indústria extrativa (0,5%). No ano o melhor desempenho da agropecuária em relação à indústria extrativa está associado ao volume exportado pelo complexo da soja (12%), pois no acumulado petróleo cresceu 0,2% e o minério de ferro (3,2%).

A desagregação por categoria de uso registrou queda em todas as categorias, exceto bens intermediários (3,9%) na comparação mensal. A queda no setor de bens de capital (-23,1%), após aumento de 53% evidencia a influência das plataformas de petróleo no mês de agosto e que uma recuperação sustentada da taxa de investimento da economia ainda não se concretizou. Os bens duráveis continuam registrando recuo em relação aos meses dos anos anteriores por conta da retração das compras da Argentina. No acumulado do ano, essa categoria acumulou queda de 10,9%. O aumento dos bens de capital em 17,1% se torna negativo (-5,5%) quando excluímos as plataformas de petróleo na comparação do acumulado do ano até setembro.

A variação nos volumes importados no mês de setembro como em agosto foi liderada pela indústria extrativa (23,6%) e os dois outros setores tiveram queda de 5,8% (agropecuária) e 8,2% (indústria de transformação). No ano até setembro, a liderança cabe à indústria de transformação (12,6%). A exclusão das plataformas, porém, diminui o percentual do volume importado da indústria de transformação para 6,9% (jan-setembro 2017/18).

Exceto o setor de bens duráveis (aumento de 33,5%), todas as categorias de uso registraram queda no volume importado quando se observa a comparação mensal do mês de setembro. Como já mencionado em outros ICOMEX, o término do regime de Inovar Auto eliminou a concessão fiscal para carros fabricados no país e estimulou essa demanda. No acumulado do ano, as variações são positivas para todas as categorias. O aumento de 66,9% nos bens de capital corrigido quando se excluem as plataformas cai para 13,5%. A contínua desvalorização cambial e a incerteza dos rumos no cenário econômico explicam a queda generalizada das importações no mês de setembro.

Destacam-se a seguir os indicadores de atividade econômica e investimentos associados às importações. Em setembro, cai o volume importado de bens de capital na FBCF (-5,7%) e dos bens intermediários (-7,4%), mas aumenta a compra de bens intermediários da agropecuária (21,1%) e de bens de capital (40,5%) da indústria. O comportamento distinto do setor agropecuário nas compras de bens intermediários mostra que o setor está numa situação mais favorável que a indústria de transformação. No acumulado do ano, porém a variação foi positiva na indústria (5,7%) e negativa na agropecuária (-12,1%). Ressalta-se que nos primeiros meses do ano, as expectativas para o crescimento da indústria de transformação eram positivas.

Consideração final


Os dados de setembro confirmam a conclusão do ICOMEX de setembro, onde se afirmou que: a balança comercial não deverá trazer riscos para o cenário externo até o final do ano e mesmo com o acirramento da guerra comercial capitaneada pelos Estados Unidos, os seus efeitos provavelmente só serão sentidos com mais intensidade em 2019.

A questão cambial permanece atrelada no curto prazo ao cenário eleitoral. Até o final de setembro, a taxa de câmbio efetiva real acumulou uma desvalorização de 14%, desde o janeiro de 2018, sendo registrada uma aceleração nos últimos dois meses, mas num cenário de elevada volatilidade diária. Esse cenário não é favorável para decisões nas operações do comércio exterior que envolvem de forma gera, horizontes acima de 3/6 meses.

Por último, num mundo de tensões comerciais, o próximo governo deve ter cautela como irá se posicionar frente aos seus dois principais parceiros comerciais. A defesa do multilateralismo parece ser a melhor opção.

Acesse a versão com gráficos aqui.

* ICOMEX é o indicador da balança comercial elaborado mensalmente pela FGV.

'
Enviando