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11/04/2018 11:59 por Redação

Retomada do setor de construção não será acompanhada por pressões de custo relevantes

Depec-Bradesco*

A retomada da atividade da construção civil neste ano será liderada pelo setor imobiliário. Iniciado ao final de 2017, o desempenho positivo do setor residencial seguirá favorável. Os segmentos comercial e de infraestrutura, entretanto, manterão desempenho mais moderado. Esperamos crescimento de 4% do PIB da construção civil neste ano, após queda de 5% em 2017. E diferente do ocorrido em outros ciclos de recuperação, acreditamos que há espaço para expansão sem pressões de custos. Por um lado, a ociosidade da indústria de materiais de construção permite que os reajustes sejam contidos. Por outro, o gradualismo da queda da taxa de desemprego, juntamente com a inflação em baixo patamar, favorece reajustes salariais abaixo da média história. Dessa forma, estimamos alta de 3,3% do Índice Nacional de Construção Civil (INCC) em 2018, ante elevação de 4,1% registrada no ano passado.

O setor imobiliário residencial será o destaque do setor da construção. Tal segmento já mostrou sinais positivos em 2017, após três anos em retração. As vendas e lançamentos subiram 9,4% e 5,2%, respectivamente, levando a uma queda do estoque de imóveis novos, segundo dados coletados pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). Neste ano, a formalização do emprego, os ganhos de renda real e as melhores condições de crédito continuarão favorecendo o setor: lançamentos e vendas devem crescer dois dígitos em 2018, apesar das disparidades regionais.

Por outro lado, o mercado imobiliário comercial e o setor de infraestrutura seguiram enfraquecidos no ano passado, e a recuperação neste ano também deve ser mais lenta. Os estoques de empreendimentos comerciais seguem elevados, o que significa que a retomada ocorrerá adiante e de forma gradual. Por sua vez, diante do ajuste fiscal em curso pelos governos federal e estaduais, há limite para incrementos significativos do investimento do setor público em infraestrutura. Ainda assim, esperamos que as concessões já realizadas e as que devem ocorrer neste ano possam trazer um cenário mais promissor ao setor, e especialmente a partir de 2019.

A defasagem do ciclo de empreendimentos residenciais fez com que a indústria de materiais de construção respondesse à melhora do cenário somente a partir do segundo semestre de 2017. A defasagem média entre o início das obras e os lançamentos é de seis meses, mas os pedidos para a indústria de insumos são realizados durante esse período. Assim, notamos expansão da demanda da indústria de materiais de construção desde a passagem de 2016 para 2017, ao passo que a produção industrial de insumos típicos da construção civil mostrou melhora somente no segundo semestre do ano passado. Nesse sentido, a alta expressiva do número de lançamentos no final de 2017 e a expansão esperada ao longo deste ano levarão ao aumento da demanda por materiais de construção nos meses à frente.

Analisando as indústrias de cimento e de aços longos, notamos elevada ociosidade de produção. O despacho de cimento está praticamente estabilizado desde o início de 2017, e em nível 20% abaixo do despacho observado entre 2013-14, quando a série atingiu seu pico. No caso de aços longos, a produção mostrou sinais de retomada em 2017, mas ainda 15% abaixo da média observada entre 2013-14. Dessa forma, não esperamos elevação significativa de preços dos insumos, apesar da recuperação de demanda das incorporadoras residenciais. De fato, a utilização da capacidade instalada do setor como um todo atingiu 75% em março, cerca de 6 pontos percentuais abaixo da média histórica.

Na mesma direção, os reajustes salariais devem ser modestos neste ano. Parte relevante dos dissídios coletivos em construção civil está concentrada entre maio e junho, de forma que as negociações serão concluídas neste segundo trimestre. A moderação dos reajustes está atrelada a dois fatores. Em primeiro lugar, as negociações devem ter como base a inflação ao consumidor em patamar historicamente baixo. Segundo, a taxa de desemprego permanece em nível elevado, acima de 12% nos últimos meses, ou seja, há elevado grau de ociosidade no mercado de trabalho.

Houve o fechamento de 1,2 milhão de empregos com carteira assinada no setor de construção entre 2013 e 2017. Isso representa uma queda de 37% no emprego com carteira assinada desde o final de 2012, quando 3,1 milhões de pessoas estavam ocupando cargos nas empresas do setor de construção. Em edificações (incluindo imóveis residenciais e comerciais), setor que deve sustentar a recuperação de construção civil, o estoque de emprego formal foi reduzido em 42% nos últimos cinco anos. Infraestrutura cortou 41% do emprego e o segmento de serviços especializados fechou 24% das vagas com carteira assinada, na mesma base de comparação.

Além disso, houve, nos últimos três meses, fechamento de vagas formais na construção, descontados os efeitos sazonais. Parte do movimento se deve ao término das obras e à entrega de empreendimentos, ainda superiores ao número de lançamentos. Outra parte está relacionada ao fraco desempenho em alguns municípios, nos quais ainda há elevado estoque de imóveis novos, e que deve continuar levando a uma razoável disparidade regional na recuperação do mercado de trabalho de construção civil. Em sentido contrário, os segmentos de infraestrutura e serviços especializados já iniciaram o processo de recomposição laboral, ainda que de forma gradual. Vale relembrar que infraestrutura, a nosso ver, experimentará recuperação ainda modesta em 2018. Portanto, somados todos os vetores, acreditamos que a recuperação do emprego ocorrerá de forma gradual ao longo do ano, conforme o início de novas obras supere a entrega de empreendimentos.

Acreditamos em desaceleração do componente mão de obra do INCC. Em 2017, o mesmo registrou alta de 5%. Neste primeiro trimestre, o custo de mão de obra, conforme o INCC, permaneceu praticamente estável (+0,03%), frente à alta de 1,2% verificada no primeiro trimestre de 2017, reflexo do elevado estoque de mão de obra disponível para contratação e negociações partindo de inflação ao consumidor em baixo patamar.

Por fim, o crescimento de 4,0% do PIB da construção neste ano é compatível com a contratação de 350 mil empregos com carteira assinada. Esse é o resultado de um exercício que leva em conta o patamar do PIB de construção civil ao final deste ano, que deverá voltar ao nível de setembro de 2016. Esse exercício, contudo, não considera qualquer ganho de produtividade. Dessa forma, o setor de construção civil seguirá sem pressões significativas de custos neste ano, a despeito do crescimento da demanda por mão de obra e materiais. Como dito anteriormente, projetamos desaceleração do INCC, passando de uma alta de 4,2% em 2017 para outra de 3,3% em 2018, o que considera aceleração gradual dos preços de materiais e arrefecimento do item mão de obra em relação ao ano passado.

Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco.

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