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10/10/2018 12:42 por Redação

China: incertezas e possível cenário à frente

Fabiana D’Atri*

O número 8, para os chineses, é símbolo de sorte. No entanto, nos últimos anos encerrados em 8 – 1998, 2008 e 2018 –, a economia do país tem se deparado com importantes desafios internos e externos. Essa coincidência, entretanto, traz uma avaliação distinta, desta vez, em relação às preocupações com a economia chinesa. Em diversas conversas e reuniões realizadas nas últimas semanas na China, é notável que, pela primeira vez nos anos recentes, as preocupações e incertezas reveladas localmente – por indivíduos, empresas, mercado financeiro, acadêmicos e pessoas ligadas ao governo – superam aquelas apresentadas pela grande maioria dod analistas fora da China. Devemos reconhecer como positivos os debates sobre os rumos a serem adotados pelo país no longo prazo. Ao mesmo tempo, é difícil definir com clareza a situação geral neste momento, dadas as divergências das discussões tanto de curto como de longo prazo e das questões externas e internas.

De forma mais ampla e tentando resumir as discussões mais importante do país atualmente, parece que as incertezas e preocupações se sobrepõem às convicções reveladas nos últimos anos. Muito mais do que discutir se estímulos de curto prazo devem ser adotados, temas mais complexos ganham espaço, como questionamentos sobre as políticas de longo prazo. Somando-se a isso, a política externa, que muitas vezes foi função da política interna, passa por desafios diante do aumento da pressão, especialmente dos EUA. Exemplificando, principalmente no meio acadêmico, reavaliam-se a eficácia e o rumo de programas tecnológicos (com questionamento, por exemplo, da qualidade dos avanços tecnológicos dos últimos anos) e de estratégias externas , como One Belt One Road (que sofre algumas resistências internas e externas, a despeito de avanços acumulados nos últimos anos). Entre muitos analistas também a discussão concentra-se em quanto se deve abrir mão dos ajustes estruturais para estimular a economia no curto prazo.

A desaceleração em curso da economia chinesa, decorrente de determinantes internos, e o aumento das tensões com os EUA podem ser vistos como gatilhos para esses questionamentos. A economia chinesa, após enfrentar instabilidades na passagem de 2015 para 2016, culminando com forte saída de capitais e perda relevante de suas reservas, registrou dinâmica muito positiva no ano passado. O PIB cresceu 6,9%, com melhora das condições financeiras da maioria das empresas e estabilização dos mercados. Esse ambiente mais estável e a retomada das exportações – refletindo a melhora da demanda externa – foram condições fundamentais para que ajustes estruturais pudessem avançar.

De fato, o controle do risco financeiro tem sido uma das principais batalhas do governo central desde então. Naturalmente, ao conter a expansão do crédito e se controlar as finanças dos governos locais, a economia chinesa começou a dar sinais de desaceleração no final do primeiro trimestre deste ano – como já era esperado. Chamam atenção o forte e rápido arrefecimento dos investimentos em infraestrutura (acumulando expansão de apenas 4,2% neste ano) e a perda de ritmo do mercado de crédito. Outros indicadores, contudo, ainda mostram crescimento robusto (inclusive do setor imobiliário), compatíveis com expansão do PIB de 6,5%, o que deve conter a velocidade de desaceleração geral da economia.

Não acreditamos que a economia seja o maior desafio para a China neste momento. Há espaço para que a desaceleração seja manobrada e controlada. Portanto, continuamos com a visão de que o crescimento deste ano ficará em 6,5% (ou algo levemente superior a isso). Para o ano que vem, entretanto, os riscos de baixa são mais elevados. Os temas de longo prazo e a pressão interna por ajustes estruturais – com aumento da participação do setor privado e posicionamento do país no ambiente global, por exemplo – serão muito mais desafiadores para os próximos anos do governo do Xi Jinping.

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* Fabiana D’Atri é economista do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco.

 

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