Home > DOCES E SALGADOS > Suécia vive incerteza políitica após eleições legislativas

DOCES E SALGADOS

10/09/2018 08:12 por Redação

Suécia vive incerteza políitica após eleições legislativas

Partido Social Democrata mantém-se como maior força, mas extrema-direita anti-imigração volta a avançar

Em uma das eleições mais dramáticas da história democrática da Suécia, os resultados do pleito deste domingo (9) confirmaram o retrocesso recorde da social democracia no cenário político, mas apesar do avanço da extrema-direita, as projeções de que o partido anti-imigração Democratas da Suécia (Sverigedemokraterna) se converteria na segunda maior força política do país não se concretizaram.

O índice de comparecimento às urnas foi de 84,4%.

O Partido Social Democrata (Sveriges Socialdemokratiska Arbetarparti) se mantém como a maior sigla do país, mas sua posição ficou mais vulnerável: os social-democratas, que têm dominado a política sueca desde a década de 30, registraram o seu pior resultado eleitoral dos quase cem anos de democracia sueca, com 28,4% da preferência do eleitorado. O número representa um encolhimento de 2,8% em relação às últimas eleições.

O bloco "vermelho-verde" que governa o país atualmente registra uma vantagem ínfima, de apenas uma cadeira, sobre a oposição de centro e direita. E o país ainda aguarda a contagem dos votos do exterior, geralmente favoráveis à direita. O resultado definitivo será divulgado na quarta-feira (12).

“Os eleitores nos escolheram mais uma vez como o maior partido do país. O fato de que um partido com raízes neonazistas (o Democratas da Suécia) tenha ganhado tanto terreno me deixa desapontado. A única coisa que tal partido tem a oferecer é o aumento do ódio. Temos a responsabilidade moral de demonstrar que um outro tipo de sociedade é possível“, disse o primeiro-ministro socialdemocrata, Stefan Löfven, em discurso a uma plateia de militantes do partido após o anúncio do resultado.

No embate dominado pela polarização do país em torno da questão da imigração e da integração, o partido anti-imigração Democratas da Suécia teve um novo salto em sua ascensão política, com 17,6% dos votos, mas retém a posição de terceira maior agremiação do Parlamento. Com a obtenção de 62 das 349 cadeiras do Parlamento, o partido teve um desempenho significativo em relação às eleições de 2014, quando obteve 12,9% dos votos.


“Somos os grandes vencedores dessas eleições. Aumentamos o número de cadeiras do partido no Parlamento, e teremos enorme influência na política sueca nas próximas semanas, meses e anos. E ninguém pode tirar isso de nós”, disse o líder do Democratas da Suécia, Jimmie Åkesson, entre aplausos da militância.

Formação de novo governo

Na reta final da contagem dos votos, o conservador Partido Moderado superou a ameaça da extrema-direita e conseguiu reter a posição de segunda maior força política do país, com 19,8% dos votos, mas com uma queda de 3,5% em relação ao pleito de 2014. Após a divulgação do resultado, o líder do partido, Ulf Kristersson, pediu a renúncia imediata do primeiro-ministro Stefan Löfven. “Este governo já se esgotou”, disse Kristersson.

O primeiro-ministro Stefan Löfven já recusou a possibilidade de renúncia. Sem que os dois tradicionais blocos políticos liderados pelos social-democratas e o Partido Moderado tenham alcançado maioria suficiente de votos, entretanto, o cenário para a formação de um novo governo é incerto.

Löfven pode tentar repetir o que fez em 2014: formar um governo minoritário com os ecologistas e obter o apoio do Partido de Esquerda (ex-comunistas) no Parlamento. Neste caso, estaria permanentemente sob a ameaça da oposição, que poderia impedir atos do Legislativo e derrubar o governo na primeira oportunidade com os votos da extrema-direita.

Também poderia apostar na abertura e convidar os liberais e centristas à mesa de negociações, mas continuaria sendo um governo minoritário.

Neonazistas - Fundado em 1988 por ativistas ligados a grupos neonazistas, o partido Democratas da Suécia entrou no Parlamento sueco pela primeira vez em 2010, com 5,7% dos votos. Nos últimos anos, a sigla soube explorar a seu favor as inquietações de parte da população com o crescimento da imigração no país, principalmente a partir da chegada de 163 mil imigrantes à Suécia no auge da crise dos refugiados de 2015, a maior recepção per capita de imigrantes entre todos os países da Europa.

Mais recentemente, cenas de violência e carros incendiados nos subúrbios menos favorecidos, habitados por uma maioria de imigrantes, alimentaram as tensões, apesar de o governo social-democrata ter adotado políticas mais restritivas de imigração desde 2016. Na mídia sueca, analistas classificaram as eleições gerais deste ano como uma espécie de referendo sobre a questão da imigração e da integração, relata a Rádio França Internacional.

Debate sobre migrantes - Historicamente, as campanhas políticas na Suécia têm se concentrado em temas relacionados ao bem-estar social, como melhorias na educação e na saúde. Este ano, a campanha foi marcada pelo debate em torno do influxo de refugiados e o desafio de integrar os imigrantes à sociedade sueca, além da necessidade do reforço da lei e da ordem, com maiores verbas para a segurança pública e a contratação de mais policiais. Deficiências no sistema de saúde também figuraram entre os principais problemas citados pelos eleitores nestas eleições.

Na visão do primeiro-ministro Stefan Löfven, é preciso investir em novos programas de integração para refugiados em comunidades marginalizadas, a fim de oferecer aos imigrantes oportunidades de acesso à educação e ao trabalho. Para os apoiadores da socialdemocracia, o voto contra a extrema direita foi um voto em defesa da solidariedade e dos valores mais fundamentais da democracia sueca.

Já para o líder do Democratas da Suécia, Jimmie Åkesson, a entrada de 400 mil imigrantes no país desde 2015 representa uma ameaça à cultura sueca e ao Estado de bem-estar social. Antes tratado como um pária pela maioria da população, Åkesson aumentou sua base de apoio nos últimos tempos a partir de uma estratégia destinada a repaginar a imagem do partido, com a expulsão de militantes radicais e declarações de rejeição ao nazismo.

O avanço da extrema-direita na Suécia reforça a tendência em curso na Europa, onde partidos populistas e anti-imigração já chegam a integrar os governos de países como Itália, Áustria, Finlândia e Noruega. 

'
Enviando