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08/08/2018 12:18 por Redação

Guerra comercial deve resultar em menor crescimento e maior volatilidade

Thomas Henrique Schreurs Pires*

Do final de fevereiro para cá, o discurso favorável a um aumento do protecionismo comercial ganhou força, resultando em uma série de ameaças protecionistas encabeçadas pelo governo norte-americano. Porém, nos últimos meses, algumas dessas ameaças entraram em vigor e geraram retaliação imediata de algumas das economias diretamente afetadas. Diante dessa escalada, as disputas comerciais do último trimestre saíram do campo da retórica e deram início a ações protecionistas de fato. Ainda que seja cedo para mensurar os impactos sobre a atividade econômica global, é consenso que, ao contrário do sugerido por alguns que defendem tais políticas, guerras comerciais, em geral, constituem conflitos sem vencedores claros.

Essa conclusão ganha respaldo quando elencamos os benefícios do aumento do comércio global, dentre os quais se destacam: (i) estímulo à inovação, que eleva a produtividade da economia como um todo; (ii) acesso a melhores produtos, uma vez que a concorrência internacional, além de reduzir o preço, aumenta a busca por maior qualidade; (iii) especialização de cada país nos setores mais produtivos e a consequente maior integração entre as economias, internacionalizando a cadeia de produção; e, por fim, (iv) aumento nos investimentos domésticos e nos fluxos de investimento estrangeiro, tanto em portfólio quanto direto. Sendo assim, é de se esperar que uma maior restrição ao comércio internacional reduza, intertemporalmente, os benefícios listados acima.

Por outro lado, é grande o apelo à argumentação de que as restrições ao comércio têm como objetivo resguardar o mercado de trabalho interno e a produção em setores ditos estratégicos. Entretanto, essa argumentação não se sustenta com a análise dos indicadores econômicos. Um bom exemplo é o NAFTA (acordo de livre-comércio entre EUA, Canadá e México) que, a partir do aumento do comércio entre seus membros, resultou em queda nas taxas de desemprego e melhora nos salários nos países, inclusive no setor industrial (setor que faz bastante pressão para aumento das restrições comerciais neste momento). Naturalmente, assim como ocorreu com o NAFTA e em outros acordos comerciais, há uma tendência a maior especialização da produção e, consequentemente, da mão-de-obra, com realocação da força de trabalho para os setores mais produtivos de cada economia. Apesar dessa realocação setorial resultar em desemprego no curto prazo em determinados segmentos menos competitivos de cada país, no médio prazo o emprego tende a ser maior em termos agregados.

Além do caso específico do NAFTA, o aumento da importância do comércio para a economia mundial serviu para impulsionar o crescimento do PIB e o desenvolvimento tecnológico, em grande medida por conta do estímulo ao investimento doméstico e ao fluxo de investimentos entre os países. Um exemplo interessante que evidencia esse fato é o caso da Índia, que passou por uma significativa abertura da sua economia, seja em relação ao comércio, seja em relação aos investimentos, e essa abertura da economia do país impulsionou o crescimento no período.

Uma vez registrados alguns exemplos dos efeitos sobre a economia de algumas das benesses do comércio, a análise análoga sugere que a guerra comercial, ou o aumento nas restrições ao crescimento do comércio e aos fluxos de investimentos entre os países, produz efeitos negativos sobre as economias. Por mais que tais efeitos devam ter maior impacto no longo prazo, já se pode observar uma queda na confiança dos empresários e nas sondagens de atividade industrial desde o final do primeiro trimestre, assim como as exportações mundiais já demonstram um menor ritmo de crescimento, sugerindo uma desaceleração no ritmo de expansão da economia mundial para o restante do ano. Empresas e consumidores tendem a antecipar um ambiente mais restritivo ao comércio global, com implicações sobre suas decisões de consumo e investimentos já no momento presente.

Diante desse cenário, outra consequência que poderemos observar ao logo dos próximos nos trimestres é a possível queda no fluxo de investimentos, em portfólio e diretos, entre os países. A simples incerteza sobre as regras que vigorarão no futuro tende a dificultar decisões para prazos mais longos.  Além desse menor fluxo de investimentos afetar negativamente o crescimento do PIB no longo prazo, uma consequência adicional pode se dar sobre as condições de financiamento de economias que apresentam déficit em conta corrente e que se valem dos fluxos de capitais como fonte de financiamento desse desequilíbrio externo.

Dessa forma, se as tensões comerciais forem intensificadas, podemos esperar efeitos negativos sobre o ritmo de crescimento do PIB mundial no médio e longo prazos, quando os impactos sobre a redução dos investimentos e a queda da produtividade da economia global se materializarem de forma mais intensa. Sendo assim, além da guerra comercial ser uma disputa difícil de ter ganhadores, ela tende a resultar em menor eficiência alocativa global, queda da produtividade e, como consequência final, menor crescimento do PIB, no médio e longo prazos. Em complemento aos efeitos na economia real, pode haver uma realimentação dos efeitos negativos com ampliação da volatilidade nos mercados financeiros, com efeitos particularmente restritivos para os países com necessidade de financiamento mais expressivos. Alguns destes efeitos começam a ser sentidos ainda de forma muito branda, mas podem se ampliar nos próximos meses.

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* Thomas Henrique Schreurs Pires é economista do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco.

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