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07/03/2018 14:23 por Redação

Projetamos crescimento espraiado entre as regiões brasileiras em 2018

Depec-Bradesco*

Este ano será marcado por um crescimento espraiado entre os estados, ao contrário do ocorrido em 2017. De forma geral, a recuperação da economia brasileira no ano passado foi mais concentrada nas regiões Sul e Norte, reflexo do bom desempenho combinado do agronegócio, indústria e comércio. Em 2018, a economia brasileira deve acelerar seu ritmo de crescimento para 2,8% e todas as regiões deverão ter elevação. Norte, Sul e Centro-Oeste apresentarão as maiores taxas de expansão, configurando o segundo ano de recuperação da economia nessas regiões.

Não há dúvida de que o agronegócio impulsionou a economia brasileira em 2017. Com o aumento de área e a retomada de produtividade, bastante beneficiada por condições climáticas excepcionais, a produção de grãos cresceu 28% no último ano. O comércio também foi destaque, com expansão de 4%, considerando os segmentos de veículos e materiais de construção. Liberação de recursos das contas inativas do FGTS, menores endividamento e comprometimento de renda das famílias, além da elevação da ocupação, permitiram que as vendas de bens de consumo duráveis e semiduráveis registrassem expansão no último ano. Como resultado, a indústria voltou a crescer, após três anos consecutivos de retração. O crescimento robusto da economia mundial e o câmbio mais estável possibilitaram avanço significativo das exportações de produtos manufaturados em 2017, também favorecendo a indústria nacional, que registrou expansão de 2,5%. Em contrapartida, o setor de serviços permaneceu enfraquecido, acumulando retração de 2,8%.

A composição setorial distinta entre estados e regiões, além de eventos específicos locais, levaram a um crescimento regional desigual no país em 2017. Enquanto as economias do Norte, Nordeste, Sul e Centro-Oeste já mostraram expansão no ano passado, a região Sudeste ainda não havia conseguido reverter completamente a recessão, ainda em retração, segundo nossas estimativas. A migração da mineração do centro-sul para o Norte e problemas fiscais no Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio Grande do Norte também alteraram o desempenho regional no período. Além disso, dentro de cada região o movimento foi bastante heterogêneo, com destaque negativo para Distrito Federal e Rio de Janeiro e positivo para Pará, Amazonas, Piauí e Santa Catarina.

Agropecuária: contribuição para o crescimento do PIB em 2018 será menor

O crescimento de 12,5% do PIB agropecuário em 2017 foi reflexo da forte expansão da safra de grãos. As condições climáticas mais favoráveis contribuíram para o resultado de destaque do setor, que impulsionou de maneira relevante o PIB nacional no ano. Ainda assim, as demais commodities tiveram desempenho mais fraco, com queda da renda proveniente do café, cana-de-açúcar e pecuária.

Assim, as regiões com forte incremento de safra de grãos registraram desempenho melhor, como os estados do Norte e Nordeste. Além da região conhecida como MaToPiBa, podemos destacar a expansão da renda agropecuária em Sergipe e Amapá. Por outro lado, Centro-Oeste e Sul foram penalizados pela retração da produção de carnes. De fato, todos os estados dessas regiões tiveram queda da renda proveniente da pecuária. Ademais, no Sul e no Sudeste houve redução da renda da lavoura. A queda de preços dos grãos não foi compensada pela ligeira alta da produção local, o que explica tal resultado.

Em 2018, a contribuição do setor para o crescimento será bem menor do que a vista no último ano. Parte dessa queda projetada se deve ao fato de que a safra não deverá ser tão elevada quanto a anterior, já que as condições climáticas serão menos favoráveis e a renda da pecuária também deve sofrer nova retração.

Indústria: retomada iniciada no ano passado seguirá presente

O crescimento de 2,5% da produção industrial em 2017 representa o início de uma recuperação em relação ao comportamento do setor observado nos anos anteriores. Assim, o desempenho positivo se deve à base mais baixa (após três anos seguidos de queda), e teve como principais motores as altas de bens de capital e bens duráveis. É possível destacar a recuperação do setor automotivo, com a ampliação da demanda externa.

Regionalmente, o Norte apresentou a maior expansão, com alta de 7,2%. O Pará foi o maior responsável por tal movimento (variação de 10,1%), com especial destaque para a indústria extrativa local. O estado está recebendo investimentos expressivos em mineração, em detrimento do Centro-Sul do Brasil. Centro-Oeste, Sudeste e Sul tiveram crescimento semelhante no último ano (ao redor de 3,0%), enquanto a região Nordeste ainda apresentou queda (-0,5%). Os setores automotivo e de máquinas e equipamentos tiveram papel relevante no crescimento da produção industrial do Sul e do Sudeste.

No Nordeste, Bahia e Pernambuco tiverem dinâmica mais desfavorável, com queda de 1,7% e 0,9%, respectivamente, da produção industrial em 2017. Em Pernambuco, indústrias de maior peso na economia local, tais como a alimentícia e de minerais não metálicos, registraram desempenho negativo. Na Bahia, o setor de refino de petróleo ainda não conseguiu se recuperar.

O panorama para a indústria em 2018 é de continuidade da recuperação. A despeito de eventuais incertezas associadas ao cenário político, a confiança dos empresários e a intenção de investimento vêm crescendo nos últimos meses. Assim, para o ano avaliamos que o setor deve crescer 3,5%, com reflexo positivo para as economias dos estados mais industrializados, especialmente para aqueles com produção de bens de capital e de bens de consumo duráveis, em linha com a expectativa de aceleração desses segmentos.

Comércio: retomada do mercado de trabalho formal e ampliação do crédito deverão impulsionar o consumo

As vendas no varejo ampliado cresceram 4,0% em 2017, após duas quedas anuais consecutivas de cerca de 8,5%. É possível traçar um paralelo dessa recuperação do consumo com o início da retomada do mercado de trabalho, com ampliação da massa salarial especialmente pelo crescimento do emprego informal. Ademais, o varejo foi impulsionado pela liberação de R$ 44 bilhões das contas inativas de FGTS. Setorialmente, vendas de veículos e de móveis e eletrodomésticos mostraram significativa melhora, enquanto vestuário ainda manteve trajetória negativa.

O crescimento do varejo no último ano se deu de forma generalizada entre as grandes regiões. O Sul e o Norte registraram melhor desempenho, com expansão acima da média nacional. De fato, dos cinco estados com maior crescimento do varejo em 2017, quatro são dessas regiões, a saber, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Amazonas e Tocantins. Nos estados do Sul, para os quais temos informações abertas por segmentos do varejo, encontramos expansão de vendas de combustíveis, supermercados, eletrodomésticos e veículos.

O Centro-Oeste, em contrapartida, apresentou o desempenho mais fraco, com ligeira alta de 0,2% em 2017. Goiás registrou a queda mais intensa, de 8,8%, puxada pela retração das vendas de combustíveis e supermercados. O varejo no Mato Grosso do Sul também recuou, mas em menor intensidade. No Nordeste, o elevado patamar da taxa de desemprego, apesar da trajetória de queda nos últimos meses, limitou o avanço do comércio. Por sua vez, no Rio Grande do Norte, as questões fiscais do governo estadual influenciaram negativamente o consumo das famílias.

Neste ano, o varejo continuará com papel importante no crescimento econômico. Projetamos expansão de 5,0% do comercio ampliado em 2018, após alta de 4,0% observada no ano passado. A continuidade de melhora do mercado de trabalho, que neste ano será marcada pela retomada da formalização, combinada às melhores condições de crédito, deverão garantir bom desempenho de bens duráveis, novamente. Ganhos de renda, ainda que em menor intensidade do que em 2017, favorecem o consumo de bens semi e não duráveis, como aqueles em supermercados, farmácias e lojas de vestuário e calçados.

Serviços: segmentos ligados a transporte e às famílias seguirão como destaque positivo

Em sentido contrário, o setor de serviços manteve desempenho negativo em 2017, acumulando três anos consecutivos de retração. Setorialmente, o resultado foi puxado por serviços profissionais, administrativos e complementares e outros serviços (que inclui atividades imobiliárias, reparo de eletrodomésticos, informática e veículos, esgoto, coleta e tratamento de resíduos e atividades de apoio à agricultura e pecuária). Somente o segmento de transportes e serviços auxiliares dos transportes e correios registrou crescimento no ano passado, como resposta ao recorde de safra e à retomada da indústria.

As regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste mostram quedas mais acentuadas no setor. O Centro-Oeste concentrou o melhor desempenho estadual (Mato Grosso) e o terceiro pior resultado (Distrito Federal). Já no Norte e Nordeste, a retração do volume de serviços foi observada em todos os estados, sendo que Amapá e Tocantins foram os que apresentaram as quedas mais acentuadas.

O setor de serviços no Sul, por sua vez, teve melhor resultado no país, com a menor queda entre as regiões. Inclusive, no Paraná verificou-se expansão do setor, impulsionada por serviços prestados às famílias e de transportes. O Sudeste também registrou queda menos intensa que a nacional, com São Paulo apresentando alta no volume de serviços de informática e transportes.

O setor de serviços deverá se recuperar em 2018. Os principais vetores para isso serão a retomada da formalização do emprego e aumentos reais de rendimento. O avanço dos índices de confiança de todos os agentes econômicos, empresarial e consumidores, também beneficia a contratação de empresas prestadoras de serviços. Todos os segmentos deverão registrar expansão neste ano, mas acreditamos que o destaque se manterá com o setor de transporte e serviços prestados às famílias, diante do elevado patamar de safra agrícola, da recuperação mais consistente da indústria e da continuidade de retomada do consumo das famílias.

Conclusão

Se em 2017 a expansão da economia foi mais concentrada em algumas regiões, esperamos crescimento mais espraiado em 2018. Ainda assim, esperamos intensidades distintas, com impulso mais forte no Norte, Sul e Centro-Oeste. A retomada da indústria e o elevado patamar de renda agrícola serão os principais impulsionadores dessas regiões. No Norte, além do cenário positivo para a indústria de eletrodomésticos, esperamos continuidade do crescimento da produção da indústria extrativa mineral, em detrimento de investimentos no Centro-Sul do Brasil. A continuidade do crescimento do consumo das famílias, especialmente com a formalização do emprego e retomada da mobilidade social, terá especial impacto positivo nas economias do Nordeste e Sudeste.

Entre os desafios deste ano, destacamos o ajuste das contas públicas, seja do Governo Central ou de alguns governos estaduais. O baixo crescimento do Sudeste, a nosso ver, estará associado às fragilidades ainda presentes no Rio de Janeiro e Minas Gerais, em termos fiscais. Assim, mesmo com o avanço da indústria local, esperamos o menor crescimento para a região. Além disso, o elevado patamar de desemprego poderá limitar a recuperação do setor de serviços voltados às famílias, destacando-se neste caso a região Nordeste.

* Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco.

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