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07/02/2018 11:19 por Redação

O mercado de crédito e a retomada da economia

Depec-Bradesco*

O ano de 2017 foi marcado por um movimento heterogêneo no mercado de crédito: enquanto o crédito à pessoa física mostrou recuperação, a carteira de pessoa jurídica registrou nova queda. Em estágio mais avançado no processo de desalavancagem, as famílias ampliaram seu consumo diante da estabilização do mercado de trabalho, da diminuição do medo do desemprego e do aumento da renda real. Já a carteira de pessoa jurídica respondeu de forma ainda mais defasada do inicialmente esperado à retomada da atividade e à redução dos juros, registrando queda de 7,0% no ano.

Os últimos indicadores, contudo, sinalizam que o crédito às empresas começa a ganhar tração. Projetamos para 2018 um crescimento de 5,0% no estoque total de crédito, impulsionado por expansão de 6,5% na carteira de pessoa física e 3,4% na de pessoa jurídica. Em nossa leitura, o mercado de crédito contribuirá de forma positiva para a retomada do crescimento neste ano, sendo um importante canal de transmissão da queda expressiva dos juros ocorrida em 2017 para a ponta final do consumo e dos investimentos.

Além de sua resposta historicamente mais defasada à atividade na comparação com as famílias, as empresas estão em estágio distinto da redução do endividamento. Enquanto as famílias começaram seu processo de desalavancagem em meados de 2013, esse movimento no setor corporativo teve início apenas em 2016, segundo dados do BIS. A experiência internacional mostra que o processo de desalavancagem costuma ser lento e a flexibilização da política monetária pode contribuir para minimizar seus efeitos negativos. Em comparação com outros países, o setor privado não financeiro brasileiro possui um dos menores níveis de endividamento do mundo, mas o comprometimento de renda se encontra em patamares semelhantes aos de outros países que passaram por processos de desalavancagem.

Combinada com a diminuição do endividamento, a redução da taxa de juros continuará tendo papel importante no alívio do comprometimento de renda neste ano. Em nossa visão, esse será um fator fundamental para a melhora do mercado de crédito em 2018. No caso das empresas, alguns financiamentos são atrelados ao CDI e a redução da Selic automaticamente produz alívio direto na despesa financeira. Sob a ótica das famílias, nossas estimativas apontam que a menor despesa com amortização e o repasse dos juros para o tomador final trarão alívio de R$ 54 bilhões à renda das famílias em 2018, ou 0,8 p.p. do PIB, contribuindo positivamente para o consumo.

A redução do comprometimento de renda das famílias e empresas reflete a contribuição do mercado de crédito para a economia, que pode ocorrer de duas formas: a mais tradicionalmente analisada, caracterizada pelo aumento das concessões; e a redução da necessidade de amortização, por liberar renda. Biggs et al. (2010) analisaram 22 episódios de crises econômicas e mostraram que a retomada da atividade econômica está mais relacionada ao crescimento do fluxo do crédito (crescimento da concessão menos amortização) do que do estoque do crédito. Os autores destacam também que como o consumo e o investimento são financiados pelo mercado de crédito, a demanda é uma função do fluxo de crédito. Logo, o crescimento da demanda agregada deveria ser uma função do crescimento do fluxo de crédito.

Em 2018, o impulso do crédito será o maior desde 2007, e, ao contrário do observado nos anos de crise, contribuirá positivamente para o crescimento da atividade econômica. Podemos ver no gráfico a seguir que a correlação do impulso do crédito, definido na equação anterior, com o consumo das famílias e investimento é elevada. O teste de causalidade de Granger mostra que o crescimento da demanda doméstica privada antecede o impulso do crédito, que por sua vez retroalimenta o crescimento econômico em um círculo virtuoso.

Em nossa visão, o mercado de crédito exercerá um papel fundamental na consolidação da retomada do crescimento neste ano. Com a continuidade da agenda de reformas macro e microeconômicas e, dessa forma, a possível manutenção dos juros baixos na economia por um período mais extenso de tempo, acreditamos que a expansão do crédito poderá ocorrer de forma ainda mais vigorosa nos próximos anos, possibilitando um aumento gradual da alavancagem no Brasil, na direção do observado em nossos pares emergentes, de forma saudável e sustentável.|

* Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco.

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